sexta-feira, 30 de março de 2012

Continuação da materia Origens da capoeira


Século XVII
          Ocorrem os primeiros movimentos escravos de fuga e rebeldia. Citam-se (sem muito rigor) relatos sobre as campanhas contra o quilombo de Palmares, na Serra da Barriga (ao sul de Pernambuco, no atual Estado de Alagoas), em que se fazia referência ao modo muito peculiar de lutar dos negros aquilombados, nos confrontos corpo-a-corpo com os invasores brancos.
          1630: No topo da majestosa Serra da Barriga, eram já três aldeias muito bem organizadas. Os moradores as chamavam Angola Janga, que no idioma quimbundo significa "Angola Pequena".
          1654: Com a expulsão definitiva dos holandeses, o "grande inimigo externo", todas as forças da sociedade colonial brasileira se voltaram contra o temível "inimigo de portas adentro", os negros palmarinos. A partir de então, quase não houve um ano em que não partisse contra eles alguma expedição, vinda de Recife, Porto Calvo, Penedo ou Alagoas. Em geral, eram de iniciativa das autoridades, mas os recursos partiam dos senhores de engenho.

Engenho retratado por Rugendas.
          1655: Em algum ponto dos Palmares, nasceu livre a criatura que chamamos Zumbi. Neste ano, um certo Brás da Rocha atacou Palmares e carregou, entre presas adultas, um recém-nascido. Entregou-o ao chefe de uma coluna, e este decidiu presenteá-lo ao cura de Porto Calvo. Padre Melo resolveu chamar o negrinho de Francisco. O menino cresceu junto ao padre, que lhe ensinou português, latim e religião. Numa noite de 1670, ao completar quinze anos, Francisco fugiu.
          1670: Zumbi, como agora se chamava o jovem Francisco, chega a Palmares, que, naquela época, eram já dezenas de povoados, cobrindo mais de seis mil quilômetros quadrados. Ganga Zumba, que significa "Grande Chefe", reinava sobre todos eles.
          1672: Zumbi assume o posto de chefe da aldeia mais próxima de Porto Calvo.
          1677: O comando geral do exército negro cabia já a Zumbi, promovido de simples chefe de aldeia, após uma série de derrotas humilhantes de Ganga Zumba diante dos soldados de Fernão Carrilho.
          1678: Ganga Zumba entra em Recife para ratificar um acordo de paz com o governo. Zumbi, acompanhado dos chefes de mocambo descontentes, marchou contra a aldeia de Macaco, a capital de Palmares, onde se encontrava Ganga Zumba. Este fugiu, com pouco mais de trezentos fiéis, para Cucaú, no sul de Pernambuco, onde o governo colonial lhe reservara terras para viver e cultivar. Entretanto, a paz firmada entre Ganga Zumba e o governador D. Pedro de Almeida não durou dois anos.
          1680: Ganga Zumba morre envenenado por adeptos de Zumbi que se infiltraram no Cucaú. O governador de Pernambuco socorreu-o tarde demais, apenas a tempo de executar sumariamente os conspiradores João Mulato, Canhongo e Gaspar. Os sobreviventes da triste experiência da secessão de Palmares foram reescravizados. Durante os quinze anos seguintes, travou-se a guerra total na Zona da Mata, entre Zumbi e o mundo dos senhores de engenho. Cada golpe provocava outro, do lado contrário.
          1687: Neste ano, Zumbi fartou-se de derrotar tropas colonialistas, regulares ou não. Invadiu São Miguel, Penedo e Alagoas. Humilhado, o mundo do açúcar resolveu então contratar Domingos Jorge Velho, o caçador de índios, para lutar contra os quilombos.
          1693: Foi um ano terrível: com a queda absoluta do preço do açúcar, o ouro da colônia desapareceu quase que completamente, e a inflação explodiu. A seca e a fome, que já penalizavam o sertão, invadiram as cidades. A plebe, os pobres-diabos que viviam imprensados entre a grande fazenda e o governo (únicas fontes de trabalho), ficaram a pão e água. A raiva e o desespero tomaram conta das ruas do Recife. O governo colonial, preparando-se para uma cruzada definitiva contra o Estado quilombola, explorou então a frustração e a inveja da plebe urbana maltrapilha e faminta: prometeu mundos e fundos a quem participasse da expedição contra os quilombos; esvaziou os presídios, indultando os fora-da-lei; convocou militares vadios da Bahia, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. A todos, a propaganda de guerra fez crer que a origem dos males brasileiros era a pátria dos negros.
          1694: Em janeiro, uma tropa de nove mil homens se pôs lentamente em marcha, sob o comando de Domingos Jorge Velho, em direção à serra da Barriga. Só na guerra da independência, 130 anos mais tarde, é que se viu um exército maior.

Desenho de Debret que mostra a luta na selva.
          Várias tentativas foram feitas pelos invasores para destruir a fortaleza de Palmares, todas elas fracassadas, até que, na madrugada de 6 de fevereiro, conseguiram finalmente romper a paliçada a golpes de canhão e penetrarem o reduto dos palmarinos. Em sua fúria, a multidão de índios, mamelucos e soldados não deixou nada de pé ou inteiro.
          Na beira do abismo, do lado ocidental da fortificação, restou uma passagem que o inimigo não teve tempo de fechar. Por ali saiu um grupo grande de guerreiros, dispostos a recomeçarem a guerra depois, quando se recompusessem. Quando passavam os últimos, rolaram pedras, e os mamelucos abriram fogo sobre eles. Na confusão que se seguiu, perto de duzentos guerreiros palmarinos despencaram no abismo.
          Por muito tempo, acreditou-se que Zumbi, num impressionante gesto de orgulho, precipitara-se do alto da serra. Até recentemente, essa era a lenda. "Por que se acreditou tanto tempo nessa mentira? (...) Uma coisa é certa: a legenda do herói étnico que prefere a morte ao cativeiro fascina nossas mentes, charme indiscutível do 'último dos moicanos'."
          Zumbi foi um dos últimos a sair, postado na retaguarda da coluna de guerrilheiros que deixou Palmares na madrugada de 6 de fevereiro de 1694. Escapou com vida. Depois, dividiu seus homens (cerca de mil) em bandos, e voltou à guerrilha.
          1695: Zumbi é morto em uma emboscada. O chefe de um de seus bandos, Antônio Soares, fora emboscado e preso, passando a cooperar com as forças coloniais em troca da vida e da liberdade.
          "Zumbi confiava em Soares, e quando este lhe meteu a faca na barriga se preparava para um abraço. Seus olhos devem ter brilhado, então, de estupor e desalento. Seis guerrilheiros apenas estavam com ele naquele momento - cinco foram mortos imediatamente pela fuzilaria que irrompeu dos matos em volta. Zumbi, sozinho, matou um e feriu vários. Foi isso nas brenhas da serra Dois Irmãos, por volta de cinco horas da manhã de 20 de novembro de 1695."
         O excelente livreto Zumbi, de Joel Rufino dos Santos - São Paulo: Ed. Moderna, 1985, serviu de base ao texto sobre Palmares.
          1696: São descobertos os primeiros veios auríferos. Começa no Brasil a atividade da mineração.

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